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sexta-feira, 9 de abril de 2010

A CONSTRUÇÃO DA TERCEIRA VIA - PARTE 2

É inegável a influência que as pesquisas de intenção de voto tem sobre a escolha do eleitor. Principalmente pela forma como são publicadas na grande mídia e pelo destaque que os meios de comunicação dão para alguns dados da pesquisa em detrimento de outros. Só para se ter um exemplo, em países como a França, as pesquisas eleitorais não podem ser publicadas nas duas últimas semanas antes da eleição. Aqui são publicadas até a véspera. No caso específico do Rio Grande do Sul, devido ao perfil eleitoral do gaúcho *,  as pesquisas influenciam ao despertar um comportamento latente: a polarização da eleição entre dois blocos ideológicos, apontando quem são os dois candidatos mais fortes para a disputa, sinalizando em direção ao voto útil.

Partindo deste pressuposto, podemos assumir que toda vez que o quadro se repetir e tivermos disputas políticas divididas entre um grupo político “A” e um grupo “anti-A”, a tendência é que o apelo ao voto útil, principalmente através da utilização de pesquisas de simulação de segundo turno, influencie de forma decisiva o resultado final da eleição.
A divulgação que foi dada a última pesquisa Datafolha vem a fortalecer estes indicativos, mostrando o favoritismo de Tarso e Fogaça sobre todos os outros candidatos. Para grande parte dos formadores de opinião a eleição está para Fogaça, o único que teria “reais” condições de vencer Tarso no segundo turno. E, neste cenário, a viabilidade de uma outra candidatura alternativa, uma terceira via, estaria impossibilitada. Projeta-se assim, uma eleição de dois turnos que funciona como se tivesse apenas um turno, pois como o eleitor gaúcho não quer correr o risco de deixar seus “inimigos” chegarem ao poder, deixam de votar no seu candidato de preferência.

Mas Rigotto venceu as eleições sobre o PT, chupando os votos do desgastado Britto depois que as simulações de segundo turno o provaram viável em uma disputa de segundo turno. Rigotto teve a arrancada sustentável que uma terceira via precisa. Yeda se elegeu governadora graças ao medo deste eleitorado (anti-PT) de que Rigotto perdesse para o PT, pois apareciam com índices muito próximos nas simulações de segundo turno. Votaram em massa em Yeda achando que tirariam o PT e tiraram Rigotto. Os votos migraram entre candidatos do mesmo bloco ideológico para candidatos que não eram os favoritos meses antes do início do HPEG. O imponderável acontece.

Quem pensa que esta eleição já está definida engana-se ou não está vendo as pesquisas com a profundidade que elas merecem. Nunca antes houve uma eleição tão propícia para a construção de uma candidatura alternativa. Tarso tem o eleitorado cativo da militância petista mas dificuldades de penetração no restante do eleitorado gaúcho de centro-direita. Fogaça tem o ônus e o bônus de ter administrado a capital por 6 anos. Yeda tem uma rejeição histórica e ainda está latente, na cabeça da população, os acontecimentos polêmicos ocorridos em sua gestão. E a insatisfação da população com os “atores” políticos que tem lhes sido apresentados está presente nas pesquisas.

Na Methodus encomendada pelo PSB-RS e publicada em 22 de março, 35,4% dos eleitores se manifestaram saturados com as candidaturas postas e ansiando por um novo nome em que possam depositar sua confiança e seu voto (ver tabela abaixo). Nesta mesma pesquisa 66,3% dos eleitores disseram não ter voto definido, podendo mudar de opção até o dia da eleição (ver tabela abaixo). 73,2% não tinham nenhum nome na cabeça na pesquisa Espontânea, onde os nomes não são apresentados ao eleitor. Na Datafolha publicada pela RBS no dia 4 de abril, o índice de eleitores que não pensam em ninguém para votar na pesquisa espontânea, é 74%. Nos cenários apresentados com os nomes, o índice de Não Sabe + Nenhum/Branco/Nulo fica em torno de 20%. E isto que diversos nomes de “candidatos não oficiais” estavam postos nos cenários, diluindo os votos.

Neste cenário tudo permanece indefinido. O eleitorado não é cativo, salvo o caso específico dos militantes partidários os votos estão aí para serem conquistados. Continuar martelando na cabeça dos eleitores que o pleito é entre Fogaça e Tarso é um desserviço que a grande mídia faz para a democracia. Seria mais correto dizer nas manchetes que 74% dos eleitores ainda não tem um nome na cabeça, ou que 35% querem uma alternativa para o que está sendo colocado.

A partir da semana que vem e até o final de abril serão conhecidos os candidatos que permanecerão na disputa do Piratini e suas respectivas coligações. Deste momento em diante é que realmente começa a campanha, que tem seu ápice no HPEG e na campanha de rua.

Pelo que está sendo apresentado até o momento, a coligação PTB x DEM cuja tendência é se viabilizar dia 12 de abril, com o nome de Lara encabeçando a disputa, dará trabalho extra para os que gostariam que a eleição já estivesse decidida. As pesquisas que mostraram os índices de Lara até o momento mudarão depois que a coligação com o DEM estiver fechada. O candidato deverá ter de saída, em torno de 7%. Com apenas 5% de rejeição e o maior espaço de TV - 6 minutos - temos aí uma potencial candidatura alternativa. Dará palanque para Serra no Estado e trará, sem dúvida, um discurso de renovação. Se acertar no discurso, poderemos ter surpresas nesta eleição.

METHODUS

DECISÃO DE VOTO

Em relação às suas escolhas, você diria que:

Já está decidido, e é muito difícil que mude de opinião - 33,7%

Está quase decidido, mas pode mudar de opinião - 28,3% >

Não se decidiu ainda, e é bem provável que mude de opinião - 14,9% >>> 66,3 %

Não tem nada de decidido, essa é apenas uma opinião inicial - 23,1% >



ALTERNATIVA DE MUDANÇA

Antes de Yeda, o PMDB e o PT governaram o Rio Grande do Sul. Pensando no futuro e nas mudanças que o Rio Grande precisa, você diria que a melhor alternativa para mudar o Estado é:

Uma alternativa nova, diferente de Yeda, do PMDB e do PT - 35,4%

A volta do PT para o Governo do Estado - 31,2%

A volta do PMDB ao governo do Estado - 19,4%

Yeda continuar no governo do Estado - 14,1%

* polarizado antes pelos blocos PTB x Anti-PTB (Noll & Trindade) e hoje pelo voto PT x anti-PT

quarta-feira, 17 de março de 2010

PESQUISAS ESTIMULADAS DE INTENÇÃO DE VOTO E SIMULAÇÃO DE SEGUNDO TURNO

As pesquisas de intenção de voto, publicadas nos meios de comunicação e a repercussão que elas alcançam na mídia, forjando os CR-P’s bem como o uso que o marketing político fez destas pesquisas através de ações dentro do HPEG são de grande influência para a decisão eleitoral. As simulações de segundo turno tem papel central na decisão de uma eleição. São elas que indicam o caminho do voto útil e cristalizam no imaginário popular quem é o candidato com as maiores chances de vencer.

Para determinar os possíveis efeitos deletérios ou manipulativos que as pesquisas possam ter sobre os eleitores deve-se dar especial atenção para a forma como estes resultados são divulgados e apresentados (BAQUERO, 1995). Devemos nos perguntar “quem apresenta estas informações e qual o interesse destas pessoas ou organizações no processo eleitoral” (BAQUERO, 1995, p.87). A forma e a intensidade com que as pesquisas são divulgadas as torna ferramentas para a manipulação do eleitorado (BARRETTO, 1997). Para Barretto (1997) os mídia revestem as pesquisas eleitorais com um aparente invólucro de coisa certa e definitiva, fazendo o eleitor pensar que seu resultado é fator inalterável.

Na realidade as pesquisas não são uma realidade solidificada, são o retrato de um momento específico, dentro de um contexto específico. Outro problema em relação a interpretação das pesquisas e a forma como são divulgadas é que os meios de comunicação costumam desprezar os elevados percentuais de indecisos e interpretam o resultado das pesquisas exclusivamente baseados nos baixos índices de eleitores que já se definiram. Outra questão é que muitas vezes os mídia ignoram a margem de erro das pesquisas transformando em manchetes pequenas quedas ou subidas dos índices dos candidatos, que estão dentro da margem de erro.

A questão básica de como os meios de comunicação tratam a divulgação das pesquisas é relevante no sentido de que pode prevalecer, no caso da TV, o “estatuto visual da verdade” (ALDÉ, 1998) ou ainda, na intenção de influenciar um CR-P para privilegiar um candidato, como vemos em Lima (2004b). Desta forma as pesquisas eleitorais se tornaram eficazes instrumentos de propaganda eleitoral. A divulgação de suas projeções é um dos mais importantes meios de se “eleger” ou “derrotar” um candidato. Quanto mais cedo começar o processo de divulgação das pesquisas maior a propensão daqueles dois candidatos que largaram na frente de se consolidarem como as melhores opções, mesmo que seus índices não sejam muito altos.

Segundo Lima (2004b) foi nas eleições presidenciais de 1989, onde Collor se elegeu, que a divulgação das pesquisas de intenção de voto e suas simulações de segundo turno primeiro mostraram seu poder no Brasil. Existe um paralelo entre a subida vertiginosa de Collor nas pesquisas estimuladas de intenção de voto e a veiculação no rádio e na televisão dos programas políticos anuais dos três partidos da coligação ao qual o candidato pertencia. A construção do CR-P no telejornalismo da rede Globo teve pelo menos duas vertentes principais, a cobertura favorável a Collor e a divulgação de pesquisas com projeção de votação em relação aos prováveis adversários de Collor no segundo turno (simulações de segundo turno) e a divulgação, ou omissão, dos resultados quinzenais/semanais das pesquisas no primeiro turno (LIMA 2004b). Estas pesquisas

incluíam uma pergunta aos eleitores que projetava a disputa para o segundo turno e, como Collor não mais perdeu o primeiro lugar desde abril – sete meses antes de 15 de novembro – a questão era saber quem seria o seu adversário. Dito de outra forma, a pesquisa passou a se comportar como se um dos vencedores do primeiro turno já pudesse estar definido e a fixar na memória do eleitor o nome de Collor como sendo este vencedor (LIMA, 2004b, p.238).

Para Lima (2004b) a periodicidade das pesquisas publicadas pelo instituto Ibope teve oscilação. O comentário em São Paulo era “quando Collor cai o Ibope não sai”. Foi com base no estudo feito sobre o CR-P das eleições de 1989 que Lima chegou à conclusão da “vitória antecipada” de Collor. O autor faz ainda referência sobre a pesquisa realizada pelo IPEP (Instituto de Pesquisa de Pernambuco) e pelo mestrado em ciência política da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) que constatou que a pesquisa eleitoral influi diretamente na decisão de 41,5% dos entrevistados e outros 43% consideraram a pesquisa muito importante porque determina se o candidato tem boa chance de ganhar.

Os eleitores indecisos, que retardam a sua tomada de decisão na expectativa de que algum novo evento os ajude a decidir em quem votar, são os mais vulneráveis às expectativas de vitória divulgadas pelas pesquisas (VEIGA, 1996). A tendência destes eleitores é se alinharem ao lado do candidato mais forte. O eleitor percebe a força de um candidato através do CR-P apresentado pelos mídia, observando o cotidiano, o número de bandeiras, adesivos, em conversas com conhecidos. Os eleitores que tem um candidato com menos chances de ganhar caem crescentemente em silêncio e contribuem, assim, para a sua derrota.

CASOS ESPECÍFICOS NO RS

No caso da eleição de Fogaça para a Prefeitura de Porto Alegre em 2004, os candidatos que apresentaram, nas primeiras pesquisas, bons índices de intenção de voto ou ainda, que tiveram, nas pesquisas subseqüentes, crescimento expressivo maior que o de Fogaça, na reta final da campanha apresentaram queda ou tiveram seu crescimento freado por não apresentarem, nas simulações de segundo turno, a capacidade de derrotar o PT, qualidade necessária para aglutinar o voto útil.

Dois outros casos nas eleições gaúchas fortalecem a importância de continuar a pesquisa sobre o apelo ao voto útil e sua possível influência no resultado eleitoral. A eleição de Rigotto para governador em 2002, onde o candidato começou a subir nas pesquisas depois que apareceu nas simulações de segundo turno como bem cotado para vencer Tarso Genro e passou a “tirar” votos de Britto (ANALISO O CASO AMANHÃ) e a eleição de Yeda Crusius para governadora, em 2006, que em uma virada histórica tirou o governador Rigotto da disputa já no primeiro turno. Baseados nas pesquisas de simulação de segundo turno eleitores de Rigotto teriam votado em Yeda para tirar o PT do segundo turno ao terem avaliado que a candidata Yeda era mias fácil de vencer do que Olívio e o PT.

No contexto político das eleições no Rio Grande do Sul as pesquisas influenciaram principalmente ao despertar um comportamento latente nos gaúchos: a polarização da eleição entre dois partidos, ou dois blocos ideológicos, apontando quem são os dois candidatos mais fortes para a disputa, sinalizando em direção ao voto útil. Concluída esta análise, podemos assumir que toda vez que o quadro se repetir e tivermos, nos municípios gaúchos, disputas políticas divididas entre um grupo político “A” e um grupo “anti-A”, a tendência é que o apelo ao voto útil, através da utilização de pesquisas de simulação de segundo turno, influencie de forma decisiva o resultado final da eleição.

terça-feira, 16 de março de 2010

COMPORTAMENTO ELEITORAL NO RIO GRANDE DO SUL

            Noll e Trindade (2004), analisam as estatísticas eleitorais no Rio Grande do Sul, de 1823 a 2002, e identificam um perfil político singular no Estado, em comparação com o resto do Brasil, com estabilidade e coerência de padrões eleitorais e valorização consistente dos partidos políticos. A causa desta singularidade seria a fronteira com os países do Prata, e entre as principais influencias platinas, a autonomia política e a polarização partidária: “a tradição bipartidária nos aproxima do Uruguai e da Argentina, a ocupação tardia nos afasta do poder central ao longo do século XIX, a experiência positivista republicana castilhista nos coloca como modelo sui generis” (NOLL & TRINDADE, 2004, p.10). Sobre o padrão platino de polarização partidária, como exemplo os “federales” e “unitários” na Argentina e os “blancos” e “colorados” no Uruguai, no Rio Grande do Sul no período pós-45, sobressai-se o confronto PTB e anti-PTB onde, o crescimento do PTB provocou como reação uma aglutinação, cada vez maior, de forças anti-PTB. Esta polarização coexistia com o sistema multipartidário e durou de 1947 a 1962.

            Em relação à polarização, na análise dos pleitos entre 1950 a 1962, “Esta dicotomização se observa em todos os níveis de eleição – majoritárias ou proporcionais – em questões locais ou nacionais, onde predomina a disputa entre populismo (PTB) e conservadores liberais (PSD, UDN, PL)” (NOLL, 1995, p.54). Segundo Noll (1995) Xausa e Ferraz já haviam detectado esta tendência em 1981 quando identificaram a vocação histórica do sistema partidário gaúcho para o bipartidarismo, se referindo ao período de quase 20 anos na política gaúcha onde predominou o confronto básico PTB/anti-PTB. Noll observa que os momentos de derrota do PTB correspondem a situações onde vários partidos identificaram-no com inimigo comum e, esquecendo divergências, se uniram como única forma de vencer o PTB. Foi o caso da Frente Democrática e da Aliança Democrática Popular, em 1954 e 1962.

             Sobre a vocação para o bipartidarismo Noll (1995) salienta que no período do regime autoritário militar as forças PTB e anti-PTB se aglutinaram entre a Arena e o MDB, mantendo o confronto político. O MDB aglutina as forças trabalhistas e a ARENA a coligação anti-PTB. O confronto trabalhistas x Conservadores-liberais dura todo o regime militar. O mesmo perfil dicotomizado prevalece no pós-64, com o MDB-PMDB e ARENA – PDS – PFL: “Considerando-se, pois, os padrões e tendências do comportamento eleitoral nas quatro décadas do pós-45, há que se reconhecer que a matriz polarizada tradicional mantém-se, em grande medida, inalterada” (NOLL & TRINDADE, 2004, p. 109)

Entre o período de 1986-1994, Noll e Trindade (2004) mostram um quadro onde PMDB, PDT e PT dividem um eleitorado de centro-esquerda, enquanto o grupo de tendências mais conservadora-liberal fica com 30% dos eleitores. Entre 1994 a 2002, começa a se formar um bloco anti-PT, respondendo ao rápido crescimento do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul.

Portanto, atualmente podemos ver a polarização partidária tradicional na disputa PT x anti-PT. O apelo ao voto útil estaria apenas canalizando o padrão platino de comportamento eleitoral, onde esquerda e direita aglutinam eleitores. Neste caso, o eleitor racional que pratica o voto útil, deixando de votar no partido que prefere para votar no que tem mais chances de ganhar está votando para evitar a vitória do partido ou bloco que ele considera pior. A alternativa “b)” descrita por Downs (1957) quando expõe as três variações do comportamento eleitoral racional em um sistema multipartidário é a que melhor descreve o quadro:

Num sistema multipartidário, estima o que crê serem as preferências de outros eleitores; daí age do seguinte modo:
a) Se seu partido favorito parece ter uma razoável chance de vencer, vota nele.
b) Se seu partido favorito parece não ter quase nenhuma chance de vencer, vota em algum outro partido que tenha chance razoável, a fim de impedir que vença o partido que menos apóia.
c) Se é um eleitor orientado para o futuro, pode votar em seu partido favorito mesmo se parecer que ele quase não tem chance de vencer, a fim de melhoras as alternativas abertas a ele em futuras eleições. (DOWNS, 1957, p. 70)